FEE analisa Operação Carne Fraca e bônus demográfico na Carta de Conjuntura de abril

Nesta quarta-feira (12/4), a FEE lançou a Carta de Conjuntura de abril. Os destaques da edição são os impactos da Operação Carne Fraca sobre as exportações gaúchas e o fim do bônus demográfico, ou seja, fim da predominância das faixas etárias mais jovens como força de trabalho. Desde 1991, a Carta de Conjuntura FEE é uma publicação mensal, que tem por objetivo analisar as questões mais importantes da conjuntura econômica nacional e regional.

O Diretor Técnico da FEE (D), Martinho Lazzari, apresenta os temas da edição de abril da Carta de Conjuntura, ao lado dos pesquisadores Sérgio Leusin Jr (E) e Pedro Zuanazzi

Impactos da Operação Carne Fraca sobre as exportações gaúchas

Os pesquisadores em Economia da FEE Sérgio Leusin Jr. e Rodrigo Feix analisam os impactos da Operação Carne Fraca, deflagrada em março pela Polícia Federal, resultado de investigação sobre um esquema de corrupção na fiscalização das carnes produzidas no Brasil.

A análise é importante, já que, no ano passado, o Brasil foi o maior exportador mundial das carnes bovina e de frango e o quarto maior exportador de carne suína. Segundo os pesquisadores, o excelente desempenho comercial do setor de carnes brasileiro historicamente tem sido atribuído ao status sanitário do rebanho nacional, à qualidade da carne ofertada e aos menores custos de produção. “Com a operação Carne Fraca, ainda que temporariamente, deterioraram-se as condições de credibilidade e reputação de que desfrutava essa indústria no mercado internacional. Conformou-se assim, um ambiente de incertezas para uma cadeia produtiva que emprega mais de um milhão de pessoas com carteira assinada”, afirmam. Em relação ao RS, os economistas avaliam que, ainda que nenhum frigorífico situado no Estado tenha sido alvo da investigação, a imagem do produto brasileiro foi negativamente afetada. “Isso pode indiretamente afetar a condição competitiva das empresas do setor no RS. Além disso, algumas empresas investigadas mantêm operações no território gaúcho”.

Com a divulgação das estatísticas das exportações brasileiras referentes a março, divulgadas na semana passada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), os pesquisadores puderam fazer uma primeira avaliação das repercussões de curto prazo derivadas da operação Carne Fraca sobre as exportações. Os dados apontam que o valor das exportações das três principais carnes comercializadas pelo Brasil (de frango, suína e bovina) subiu 7,8%, comparativamente ao mesmo mês do ano passado. “Embora tenha ocorrido queda no volume embarcado, a elevação nos preços médios das proteínas brancas determinou o crescimento do valor exportado. No RS, o valor das exportações de carnes cresceu 8% em março, impulsionado pela elevação nos preços médios das carnes de frango e suína”, indicam Feix e Leusin.

Para os pesquisadores, os dados surpreendem, mas o cenário internacional ajuda a entender essa relativa resistência das vendas externas brasileiras, mesmo em um ambiente de aparente crise institucional. “Atualmente um grande número de países está sendo negativamente impactado pela gripe aviária. A China, por exemplo, pela primeira vez em muitos anos reduziu sua produção doméstica de frangos, passando a suprir o consumo doméstico a partir de importações de países não afetados por essa enfermidade, entre eles o Brasil”, justificam. Outra razão que, em menor grau, também pode impactar é que as sanções impostas à Rússia, principalmente pelos Estados Unidos e União Europeia, como decorrência do conflito na Ucrânia, promoveram uma reorganização dos fluxos comercias internacionais de carne suína que favoreceu marginalmente o Brasil.

Apesar disso, os pesquisadores da FEE alertam para o fato de que houve recuo na venda das carnes gaúchas em março para tradicionais compradores, como o caso da China em relação às carnes suína e bovina. “Ainda é cedo para projetar os impactos econômicos de longo prazo derivados da operação Carne Fraca, mas se torna evidente a necessidade de aperfeiçoar a governança pública e privada dessa cadeia produtiva”, projetam.

Bônus demográfico encerrou primeiro no RS, estado com maior proporção de idosos

Pedro Zuanazzi, pesquisador em Estatística da FEE, discutiu na Carta de Conjuntura o fim do bônus demográfico, conhecido como o período em que a dinâmica da estrutura etária da população contribui para o crescimento da economia da região.

Com a queda da taxa de fecundidade a partir dos anos 1960, o crescimento do número de crianças na população passou a ser menor do que o crescimento da População Potencialmente Ativa (PPA), dando origem ao bônus demográfico. No entanto, o bônus possui prazo de validade. “Dentro do processo da transição demográfica, a janela de oportunidade termina após algumas décadas, quando o elevado contingente de pessoas que no passado se encontrava na população ativa ingressa na fase idosa, e a reposição não ocorre na mesma proporção devido ao baixo número de jovens. Aumenta, assim, o percentual de dependentes na população”, avalia Pedro.

O pesquisador aponta ainda que esse processo não ocorre da mesma forma em todo o território nacional. “Enquanto estados das regiões Norte e Nordeste ainda terão alguns anos da janela, no RS, estado com maior proporção de idosos, o bônus se encerrou primeiro”, pontua. No Brasil, o processo de redução da participação da PPA entrará em processo de redução a partir de 2020. Já no ano de 2030 a demografia deverá contribuir negativamente em 0,33%. “Nesse contexto, para crescer o PIB per capita será primordial o aumento da produtividade média por trabalhador ou da proporção de ocupados na PPA”, avalia. “Ainda que a reforma previdenciária, que está em discussão no congresso, amplie a idade mínima de aposentadoria para 65 anos, o fim da janela de oportunidade se estenderia apenas até 2022 e já em 2030 a contribuição demográfica seria de -0,24%. Ou seja, expandiria suavemente o intervalo do bônus demográfico, mas o aumento da produtividade do trabalho permaneceria sendo necessário”, projeta.

Apesar das dificuldades, o pesquisador expõe que muitos países têm mostrado que é possível crescer, mesmo após o fim do bônus demográfico. “O Japão apresentou, conforme dados da Organização das Nações Unidas (ONU), a variação anual mais negativa da participação da PPA na década de 2000. Em contrapartida, ao mesmo tempo o país cresceu em 0,7% sua renda per capita, principalmente devido à produtividade do trabalho, que aumentou em 0,97% ao ano”, exemplifica.

Para o Brasil, o desafio é maior, já que reduziu seus patamares de fecundidade muito rapidamente e irá experimentar decréscimos da participação da população ativa ainda enfrentando dificuldades típicas de países em desenvolvimento. “É preciso criar meios que possibilitem contornar esse processo, crescendo os investimentos em infraestrutura e educação, além de aumentar a retenção da mão de obra qualificada. No caso específico do RS, onde a participação da PPA na população já está diminuindo há mais tempo, o aumento da produtividade do trabalho se torna ainda mais essencial”, analisa. Zuanazzi aponta, contudo, que para o crescimento de curto prazo o fim do bônus não é um problema devido à elevada quantidade de desempregados gerada pela crise econômica, o que cria uma oferta reprimida de mão de obra.

Gisele Reginato – Jornalista

Texto: Núcleo de Imprensa - FEE