Carta de Conjuntura FEE apresenta análise com as perspectivas econômicas para 2017

Na semana dos 43 anos da Fundação de Economia e Estatística, a Carta de Conjuntura oferece uma edição especial de aniversário, com perspectivas econômicas para 2017 em várias áreas. Os pesquisadores que participam da publicação receberam a imprensa nesta quarta-feira, 9, no auditório da FEE. O Diretor Técnico, economista Martinho Lazzari, conduziu a apresentação. As análises oferecem uma abordagem geral do Brasil e do Rio Grande do Sul, além de focar em setores como o agronegócio,  indústria, exportações, emprego, situação das finanças, previdência e educação.

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Da esquerda para a direita: diretor técnico Martinho Lazzari e os pesquisadores Thomas Kang, Liderau dos Santos Marques, Cecília Hoff, Iracema Castelo Branco, Jefferson Colombo, Fernando Lara e Tomás Torezani

O texto Política econômica e perspectivas para a economia brasileira, do economista Fernando Maccari Lara, entende que  a recessão brasileira tem causas predominantemente domésticas. Para o pesquisador, a recessão atual constitui o desfecho de um processo que tem início já no primeiro mandato da Presidente Dilma Rousseff. “O forte ajuste fiscal de 2011 e o fracasso da “nova matriz macroeconômica” em sua tentativa de correção de preços relativos (juros e câmbio) para dinamizar exportações e investimento privado constituem o início do desmonte da estratégia de gestão da política macroeconômica praticada até 2010”, avalia. No entendimento de Lara, considerado o quadro de recessão, as perspectivas para economia brasileira não recomendam esperar pela retomada dos investimentos privados, em função dos níveis de ociosidade da capacidade produtiva. Segundo o economista, mesmo sem qualquer problema grave no cenário externo, a orientação pela austeridade fiscal em meio à recessão exclui sumariamente a alternativa de uma ação contra-cíclica.”Sou bem contundente nessa posição.  Não há nenhuma razão para acreditar que a austeridade fiscal leve ao crescimento. Mesmo na literatura mundial, há uma revisão de pontos sobre os efeitos da política fiscal sobre a atividade econômica. Infelizmente não há espaço para uma discussão mais consistente. Se conclui de modo imediato que a crise fiscal acontece porque os governos gastaram demais, mas isso não corresponde sempre à realidade”, enfatiza.

A visão regional está no texto de Jefferson Colombo, Perspectivas econômicas para o Rio Grande do Sul em 2017. O economista aborda diferentes aspectos para olhar a economia regional como fatores climáticos e heterogeneidade na matriz produtiva. Para 2017, segundo o pesquisador, existe uma preocupação crescente entre meteorologistas com a possível ocorrência do fenômeno La Niña, ainda que prognósticos iniciais de área e produção da safra de verão 2016/2017, estimem um crescimento de 2,2% na produção total de grãos. Outros indicadores também apontam para um desempenho favorável em outros segmentos do agronegócio. Já na indústria, o texto prevê uma possível retomada na produção, bastante deteriorada pela queda acentuada na taxa de investimento brasileira. Para o pesquisador, os indicadores antecedentes da safra de verão e as singularidades da economia gaúcha sugerem que a economia local terá desempenho relativamente favorável no ano de 2017. Mas ele alerta: “Este prognóstico, no entanto, é contingente a dois fatores principais: condições climáticas favoráveis e recuperação do investimento agregado nacional, cujo efeito sobre a indústria do RS seria potencializado pela sua relativa especialização local na produção de bens de capital, com destaque para aqueles destinados ao setor agropecuário”.

Perspectivas para a agricultura gaúcha em 2017, do pesquisador Rodrigo Feix, trata especificamente da expectativa diante de um setor determinante para a economia do RS, influenciado no ano que vem por uma previsão de oferta mundial maior que a expectativa de demanda, com elevação dos estoques mundiais de soja, milho, arroz e trigo. Feix também menciona os riscos climáticos e destaca que as projeções convergem para um cenário de menor expansão/estabilidade da área plantada de soja e de ampliação do cultivo de milho e de arroz. Contudo, o pesquisador ressalva: “nesse momento qualquer estimativa de produtividade e produção agrícola está sujeita a uma ampla margem de erro, dado o estágio inicial do ciclo produtivo das culturas analisadas e o risco climático envolvido”.

Recuperação na indústria de transformação? É a indagação trazida pela economista Cecília Hoff. Como resposta, Cecília entende que não há indicativos de que a retomada industrial possa adquirir força suficiente para restabelecer o nível de produção pré-crise no curto prazo. A pesquisadora observa que apesar da melhora marginal em alguns setores, entre abril e agosto o total da indústria de transformação ainda registrou queda de 1,6%. Entre os setores que seguem em retração, há alguns que ora sinalizam uma estabilização, ora voltam a se reduzir, apresentando um desempenho irregular, diz o estudo. A economista entende que uma recuperação da produção industrial, nacional e regionalmente, poderá se mostrar consistente quando o mercado interno mostrar sinais mais claros de expansão. “Ainda que as exportações de bens industriais sejam um destino relevante para a produção, sobretudo no Rio Grande do Sul, o seu potencial de crescimento é reduzido, por diversos motivos, entre os quais o lento crescimento esperado para a demanda mundial”, analisa.

Tomás Torezani busca responder O que esperar para as exportações gaúchas em 2017. O cenário caracterizado pelo baixo crescimento do comércio e do produto globais e pela elevação de práticas protecionistas parece trazer mais desafios e acirramento da concorrência do que boas notícias para os produtos gaúchos. A superação desse quadro adverso requer mudanças. “Por apresentar uma pauta exportadora concentrada em poucos produtos e países, uma recuperação de parceiros comerciais relevantes e uma evolução mais favorável dos preços dos bens exportados podem reverter um cenário ainda pior para as vendas externas gaúchas”, diz Tomás.

O mercado de trabalho é o objeto da análise da economista Iracema castelo Branco. Perspectivas para a taxa de desemprego em 2017 mostra um cenário de escalada da taxa de desemprego e de deterioração dos demais indicadores do mercado de trabalho.  “A taxa de desemprego no Brasil que era de 6,8% em 2014 aumentou para 8,5% em 2015 e para 11,8% no trimestre de julho a setembro de 2016, atingindo mais de 12 milhões de pessoas, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) do IBGE”, aponta Iracema. De acordo com Iracema, a análise dos dados sugere que o crescimento da taxa de desemprego seria ainda mais intenso se não fosse à queda da taxa de participação, seja pelo adiamento do ingresso dos jovens nas atividades laborais para se dedicar somente aos estudos, seja devido ao aumento na proporção de idosos na população em consequência da transição demográfica. Outros fatores preocupam como a eliminação de ocupações de maior qualidade, já que a única ocupação que vem crescendo nos últimos meses, de forma mais intensa, é a dos trabalhadores autônomos (42 mil de junho a setembro), tendência que deve se manter em 2017. “Em síntese, a taxa de desemprego seguirá elevada enquanto o cenário não mostrar uma retomada do crescimento econômico de forma consistente.  A perspectiva é de que o patamar de desemprego no período pré-crise ainda demore algum tempo para aparecer no horizonte”, prevê Iracema.

Não menos preocupante é a situação fiscal do Estado. Liderau dos Santos Marques Junior é o economista autor do texto O que esperar da política fiscal estadual para 2017? A partir da análise das  propostas orçamentárias (PLOA), das medidas de austeridade fiscal  e dos principais pontos de renegociação da dívida , o pesquisador prevê que deverá haver uma piora do quadro fiscal . “A previsão do déficit para 2017 não é maior em razão dos descontos nas parcelas da dívida, daí a redução do serviço da dívida na comparação com a proposta de 2016, e da manutenção de reduzidos níveis de investimentos, bem como a contenção no custeio. A proposta 2017 prevê ainda uma elevação do déficit primário para R$ 1,7 bilhão”, alerta. Para o economista, enquanto não se retomar a trajetória de superávits primários, suficientes para controlar o endividamento público estadual, isto é, enquanto as contas públicas se mantiverem desequilibradas, a política fiscal se manterá limitada ao controle na “boca do caixa”.

Questão central na análise das finanças públicas do Rio Grande do Sul, a questão da previdência é abordada pelo pesquisador em economia Thiago  Felker Andreis no texto As infindáveis reformas da previdência: o que esperar para 2017? O pesquisador entende que o ano de 2017 será de consolidação do RS-PREV, a nova previdência complementar dos servidores do Estado. “O ano que está por vir será de amadurecimento do RS-PREV. Seu ritmo de crescimento, no entanto, deverá ser lento, uma vez que o atual cenário fiscal do estado tem dificultado a realização de novas contratações”, aponta.  O  pesquisador alerta, contudo, que RS-PREV, por si só, não será capaz de resolver a questão da previdência no estado no curto e médio prazos, mas no longo prazo  e levanta outros pontos relevantes, como a previdência dos militares e dos professores que escapam à alçada do governo do Estado, as aposentadorias especiais e a discussão sobre o possível aumento das alíquotas de contribuição para os servidores públicos.

A reflexão que encerra a publicação especial com perspectivas para 2017 traz dados sobre a educação no Estado. O IDEB no Rio Grande do Sul: série histórica, metas e cenários até 2021, do pesquisador em economia Thomas H. Kang,  analisa os últimos resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). Os dados mostram estagnação do Rio Grande do Sul e  motivaram questionamentos sobre a falta de progresso nos resultados educacionais. O pesquisador divide a análise nos três ciclos avaliados pelo IDEB: anos iniciais do ensino fundamental (EF), anos finais do EF e ensino médio (EM). Começando pelos anos iniciais do EF, observa-se que essa é a etapa em que se obteve contínua melhoria. No entanto, os dados não são otimistas para os anos finais do EF e sob a perspectiva da evolução histórica, o ensino médio preocupa ainda mais. De acordo com o pesquisador, as soluções para evitar que os cenários pessimistas para os anos finais do EF e o ensino médio se confirmem não parecem ser simples. “As melhorias nos anos iniciais do EF podem até, na verdade, gerar algum otimismo. Afinal, uma proporção expressiva das crianças matriculadas nos anos iniciais hoje são as que chegarão ao ensino médio em 2021. Evidentemente, isso não significa que a qualidade da nossa educação escolar seja satisfatória. Para promover melhorias na qualidade da educação, são necessárias políticas que mudem diversos aspectos de gestão e financiamento da educação básica”, propõe.

Sandra Bitencourt- Jornalista

Texto: Núcleo de Imprensa - FEE