Pesquisa mostra como jovens da RMPA enfrentam estudos e trabalho nas últimas duas décadas

Os dados dão conta da situação de estudo e trabalho dos jovens residentes na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), para o período de 1996 a 2016 e foram lançados nesta quarta-feira, 13, no DIEESE.

O estudo que utiliza as informações captadas pela PED-RMPA (FEE, DIEESE e FGTAS) busca investigar a  situação educacional dos jovens, as distorções idade-série, a conciliação dos estudos com alguma atividade profissional para parcela significativa da juventude, a dedicação  a apenas uma atividade produtiva e até a situação dos que não estudam e nem trabalham. De acordo com a economista do Dieese Lucia Garcia, coordenadora nacional do sistema PED, os dados contemplam as diferenças etárias no interior da juventude, começando pela adolescência até o jovem adulto.

Os jovens entre 15 e 29 anos constituem 22,2% da população na RMPA (2016), praticamente 1/4 da população. Parcela significativa desses jovens (58,9%) não estudava e a maior parte dos que não estudavam era composta de jovens que trabalhavam (46,8%). Da mesma forma, percebe-se que entre os jovens havia 12,1% que não estudavam, não trabalhavam e nem procuravam trabalho.

“A educação deve ganhar prioridade para o conjunto da juventude, libertando-a do ingresso precoce no mercado de trabalho. A postergação da inatividade juvenil possibilita a ampliação da escolaridade e a melhor preparação para o ingresso no mercado de trabalho”, recomenda Lúcia Garcia.

As informações apuradas pelo estudo indicam que percentual expressivo da população juvenil metropolitana participa do mercado de trabalho, por meio do engajamento ocupacional ou em busca de oportunidade de trabalho remunerado, estudando simultaneamente ou não. Na Região Metropolitana de Porto Alegre, esse contingente correspondia a 61,6% dos jovens em 2016.

Por outro lado, aponta o estudo, no último ano, 26,3% da população juvenil somente estudavam, cabendo destacar que essa proporção vem aumentando ao longo dos vinte anos que demarcam a promulgação da LDB. “Conseguimos associar essa conquista como resultado da vigência da lei. É uma consequência direta dessa política pública.Em 1996, aproximadamente 20% da juventude residente na metrópole gaúcha se dedicavam somente aos estudos. Houve melhora porque a idade passou a corresponder à série adequada.Resultado da universalização”, destaca Lúcia.

No último ano, os jovens que conciliavam estudo e trabalho e/ou procura por trabalho na RMPA correspondiam a 14,8% do total, percentual muito próximo ao verificado no início da série analisada (14,6%), em 1996. “Esse indicador era cerca de 20% entre 1998 e 2009, a partir de 2010, auge da reestruturação do mercado de trabalho regional, verificaram-se reduções contínuas nesse percentual até alcançar os patamares atuais”, aponta Lúcia. Maior parcela da juventude, contudo, era composta pelo segmento exclusivamente dedicado ao mercado de trabalho – em exercício profissional ou a procura de uma ocupação remunerada. Em 2016, 46,8% dos rapazes e moças da RMPA se encontravam nessa condição, compondo a força de trabalho regional e já afastados das rotinas estudantis. “É preciso ressaltar que esse indicador tem um patamar atual pouquíssimo inferior ao apurado vinte anos atrás (51,1%)”, ressalta Lúcia. “Podemos dizer que essa condição se mantém estável ao longo dos anos, caracterizando nossa juventude como predominantemente trabalhadora, o que implica na demanda de políticas públicas sociais e de educação”, completa.

Um dado preocupante, embora refira-se a uma parcela menor, é o número expressivo da juventude que não participava dos circuitos da educação regular ou do trabalho remunerado. Entre 1996 e 2016, esse percentual da população juvenil declinou pouco, passando de 15,1%, em meados dos anos de 1990, para os atuais 12,1%.

Já a situação educacional vem melhorando nas  últimas duas décadas.  A proporção de jovens que ampliaram a formação escolar, principalmente completando o ensino médio, praticamente dobrou nesse período (de 16,7% para 31,7%), assim como aqueles que ingressaram no ensino superior, cujos percentuais cresceram de 7,4% para 13,9%, ou ainda obtiveram o diploma universitário. “Melhorou o acesso ao ensino superior e aumentou a não conciliação de trabalho e ensino fundamental. Ou seja, mais adolescentes estão onde deveriam estar,: na escola. Isso resulta de duas políticas públicas, políticas de estado”, destaca Lúcia.

Apesar das mudanças significativas no perfil dos jovens, com avanços na escolarização, o estudo aponta a persistência da distorção idade-série (aproximadamente 47,6% não concluiu o ensino básico), o que compromete o acesso às etapas de ensino na idade adequada e, ainda que em menor proporção, a persistência da situação de jovens que, pelas precárias condições socioeconômicas, apenas se dedicavam a uma atividade produtiva ou procuravam trabalho, porém não estudavam.

“Apesar da grande evolução do nível educacional da população jovem da Região Metropolitana de Porto Alegre no período, em 2016 apenas 6,2% dos jovens com idade entre 15 e 29 anos tinham completado o ensino superior e aproximadamente 60% deles não estudavam”, destaca a pesquisadora.

Para Lúcia, este é um cenário que aponta para a necessidade de políticas públicas específicas que facilitem e estimulem esses jovens a manterem-se estudando e/ou que criem possibilidades de conciliação entre estudo e trabalho.”Estes são resultados de acompanhamento de longo prazo, de dados que não falam apenas de quem perdeu o emprego, mas permitem outras leituras. Isso demonstra a importância de pesquisas e instituições sólidas”, completa .

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Sandra Bitencourt-Jornalista

 

 

Texto: Núcleo de Imprensa - FEE